Acabara de ter uma crise de tosse daquelas que parece que o ar não vai entrar mais. A experiência de estar sufocado, pensava, é muito próxima da impotência frente ao imponderável. Uma tarde de muito frio na Vilaboim e tomo um taxi que me levaria ao banco e depois ao consultório. Informei o taxista sobre nosso trajeto.  Ao informar que o banco se encontrava na outra pista da avenida , oposta à aquela por onde íamos, o taxista não conteve seu desconforto. Foi me perguntando sobre a possibilidade de irmos a uma outra agência e se queixando da situação pela qual se sentia vitimizado, disse-me que não faria uma conversão proibida porque  seria multado e que tinha mais multas na carteira do que as cirurgias que já fez na vida. Em menos de cinco minutos despejou -me um balde de reclamações e não pensando em nenhum momento  em fazer um outro caminho parou do outro lado da rua em frente ao banco e me solicitou que saísse e que poderia descontar a bandeirada.  Eu permanecia calada, estarrecida, dado que lhe havia informado nosso destino quando entrei no taxi. Paguei e fui embora, sem a menor disposição de tentar fazê-lo analisar sua atitude. Ele me agradeceu como que estranhando a ausência de uma reação nervosa minha em represália à sua descortezia.

Ao sair do banco retomei a pé o rumo intencionado e ao passar pela Rua Baronesa de Itú vi um casal de moradores de rua sentados à porta de um restaurante e um segurança ao seu lado, com cara de poucos amigos e que os intimava a sair dali.

O rapaz se levantou e chamou a menina: Deise , vem Deise ! Sinalizava que não se demorasse porque o segurança iria prendê-la.

Ao se voltar para trás me viu e me disse algo que não entendi mas continuei olhando para ele com um sentimento de tristeza, compaixão e impotência ao mesmo tempo quando sou  então surpreendida com sua fala e com seu sorriso para mim:  Deus abençõe a senhora. A senhora é muito linda !

 Parece que o fato de ter apenas olhado para ele foi  um acolhimento.  Um despossuído de bens os mais primários foi capaz de sensibilidade e generosidade no gesto.

Leu o que estava escrito em minha testa? Estava em contato com meu lado que às vezes também pode se sentir mendigo ?

Ele atravessou a rua ainda chamando sua amiga ou irmã ou quem sabe namorada …Deise que tomava mais um gole e reunia os pertences de sua casa itinerante .

Continuei o meu caminho, pensando o quanto aquele taxista estaria se sentindo miserável , sem nada para oferecer .Compaixão e generosidade são dons divinos mas é preciso olhar para o mendigo que existe em  cada um de nós. O que se sente mais miserável pode suportar sua dor , se o sentimento de compaixão pelo outro e pelos fatos de sua vida não tiverem morrido apesar das dores.

Negar o mendigo interior é negar a própria sombra que vai roubar a direção do carro e sair em desgoverno..

Carro desgovernado

Vida desgovernada

O eu desgovernado

 Desgoverno.

Cegueira da alma

Morte  psíquica

 Morte.

Jovens na calçada

 Com vendas nos olhos

Ensaiam sobre a cegueira

Como Saramago.

Para ver é preciso abrir os olhos da alma.

Empresas Familiares

27/01/2011

Freud ao refletir sobre a etiologia  da neurose apontou dois fatores de satisfação e de conflito primordiais  humanos: o amor e o trabalho.

Quando amor e trabalho apresentam uma grande área de intersecção como é o caso das empresas familiares  emergem conflitos  muitas vezes impossíveis de serem contornados  que levam à falência do negócio ou ainda dos projetos individuais. Se o foco deixa de ser no negócio e a familia vê na empresa apenas  o lugar da preservação do seu  patrimônio afetivo e material, a possibilidade de estagnação do processo de crescimento da empresa existe.

Algumas questões são centrais para uma reflexão sobre o tema :

. De que modo o modelo de exercício da autoridade presente na familia pode influir no estilo de liderança predominante em uma empresa?

. Como os conflitos familiares, desejos e fantasias dos membros da familia extravasam na empresa e quais são as consequências disso?

Em uma empresa familiar temos dois sistemas interagindo:  a familia e a organização. Esses sistemas interagem segundo o esquema conceptual operativo do grupo Empresa/ Familia. Segundo Pichon Riviére, todo grupo tem uma tarefa inconsciente que se não for decodificada pelo próprio grupo poderá atuar como bloqueio na realização das operações ou tarefas  do mesmo grupo. A tarefa inconsciente se não for decodificada se constituirá como sombra grupal .

Os sentimentos que cada membro da familia desperta em cada um dos demais, a forma como cada anseio é ou não compartilhado também são vividos pelo consultor através da contratransferência.  A contratransferência é um termo cunhado por Freud para se referir as emoções do analista durante a análise, motivadas pelas fantasias e emoções do cliente . Hoje é entendida como ferramenta de trabalho na análise e nas intervenções de caráter clínico, na abordagem  psicodinâmica . Na contratransferência atuam projeções de conteúdos do cliente para dentro do analista e vice-versa. A forma como o profissional se identifica com esses conteúdos definirá seu modo de interação com seu cliente. Da mesma forma na transferência o cliente projetará conteúdos emocionais no analista e se identificará de várias formas com seu analista. O fulcrum dos processos transferenciais é a emoção  dos envolvidos. A aplicação desses conceitos à psicologia das organizações possibilita o trabalho com conflitos para os quais um trabalho apenas através de uma abordagem cognitiva não teria sucesso. A contratransferência do consultor e a transferência do cliente são fonte de entendimento das relações interpessoais na organização.

Um conceito familiar à Psicologia Junguiana é o de simbolo. O símbolo conecta o que aparentemente estava separado e recupera o sentido. A análise dos mitos grupais possibilita a compreensão simbólica dos valores que regem uma instituição ou grupo. Se nos mantivermos atentos aos temas das narrativas e diálogos,  estaremos mais próximos de uma compreeensão dos mitos, fantasias, idealizações, presentes nas ações grupais.

Tomando como referência o conceito de inconsciente coletivo junguiano, através de uma análise dos mitos grupais poderemos entender temas centrais nos conflitos grupais , como também entender seus  potenciais , anseios e valores.

O consultor e o mediador passam a fazer parte da trama de relações a partir do momento em que inicia o processo de acessoria a um grupo. Serão envolvidos no processo através da projeção feita pelo grupo dos conteúdos inconscientes grupais  a serem trabalhados.

Da mesma forma , nos empreendimentos familiares , as práticas empresariais serão afetadas pelas necessidades afetivas da familia e por seus anseios. Sem trabalhar com as emoções do grupo e com as próprias o profissional terá dificuldade de cumprir sua tarefa de mediador de conflitos.

Os aspectos positivos dos laços afetivos assim como seus aspectos negativos serão matéria – prima do trabalho.  Conflitos pessoais não resolvidos, rivalidade entre familiares, diferentes anseios sobre a empresa são fatores cruciais para o sucesso ou fracasso do empreendimento familiar.