vista do edifício Bretgane Higienópolis

Vista do Edifício Bretagne

 http://youtu.be/Y1-7-OQC0S0

 Hoje é aniversário de São Paulo, uma das cidades mais caras do mundo. Cara , querida e odiada. Esse é o paradoxo de SP. É só caminhar pelos jardins e suas lojas luxuosas e depois dar um pulinho na região do bairro da Luz, ex- cracolância para entender suas contradições. Será ex mesmo? Cidade de contrastes, São Paulo assusta e fascina. Cidade para onde as regiões menos favorecidas do Brasil migram e sempre encontram um lugar, mesmo que num terreninho de ocupação clandestina até  quando não se sabe.

 Cheguei a São paulo aos 9 anos de idade vindo com minha familia do Rio de janeiro, minha terra natal, para morar no bairro da lapa. Amo a Lapa até hoje. Lapa da imigração italiana que acordava atrás do verdureiro , sr Roberto, e não havia tomate e escarola que chegasse: RRRRRobertoo quero duas escarola! Dizia dona Maria do Sr Xingo.  Do outro lado da rua em uma casarão antigo tres irmãos italianos cantavam ópera logo cedo. E mais abaixo a professora de piano que dava aula passando flanela ao mesmo tempo nos móveis. Cheiro de molho de tomate pela rua toda logo de manhã e à tardinha perfume de geléia de uva fervendo no fogão.  Ao cair da tarde ruído dos meninos correndo com os carrinhos de rolemã. Lapa dos restaurantes que faziam frango a passarinho enquanto as moscas fritavam no fritador que ardia no teto. Sobremesa: Morango com Chantilly ou pudim de leite.  Ao lado o Palestra Itália abria seus braços para os bairros da Pompéia   e de Perdizes quando ainda não havia Avenida Sumaré. Alí era tudo mato. Na Rua Venancio Aires os Mutantes na casa de Rita Lee ensaiavam encantando as tardes. Na avenida Pompéia os sobrados geminados tinham até o muro encerado. Na rua Germanine Buchard o Defe e sua saudosa piscina que abrigou tantos atletas da natação de São Paulo.  Nadar nas piscinas de SP foi uma grande oportunidade : Clube Pinheiros, Tietê, Ipê, Corintians, Círculo Militar, Palmeiras, Alto de Pinheiros, Anhembi, Juventus , Portuguesa , Paulistano e Hebraica. Quem não conheceu a Lapa não conhece São Paulo.  Mas é importante conhecer o que está do outro lado da cidade.

E o Brás? Estação do norte que abrigava os que vinham do norte do Estado. O trem de aço para o  Rio de Janeiro …delicia!

Os magazines Mappin , Clipper que foram durante muitos anos centro das compras da classe média de SP.

E a rua Augusta que descia em cortejo todos os fins de semana : Chocolamour no Bambi, Mocassim da Spinelli ou La Pisanina , rua Augusta onde desfilavam as garotas de SP com as minis cada vez mais curtas , concorrendo com as garotas de Ipanema.

Descendo a Paulista , na Consolação o saudoso Cine Belas Artes das tardes de altos debates sobre os filmes franceses de primeira linha.

Caminhando pela Avenida Paulista encontramos a Avenida Angélica, princesinha que comunica os bairros do Pacaembu, Higienópolis e Cerqueira César  nos levando ao Pacaembu. Grande arena , o estádio do Pacaembu. 

São Paulo cresceu muito, se expandiu de oeste para sul e depois cresceu também para o norte e leste. Na Marginal do Pinheiros surgiram imponentes  condomínios comerciais . E  o  Jockey permaneceu soberano junto às novas construções.

Um bairro antigo de casas e chácaras foi demolido e virou bairro emergente com restaurantes, bares, casas noturnas com cardápios de todas as etnias: Itaim .Surgiu a Juscelino e a João Cachoeira teve que se modernizar, embora ainda se veja por lá algumas lojinhas do passado.

 Com os túneis  e o metrô SP ampliou os laços entre suas regiões  e hoje leste e oeste, norte e sul se comunicam com mais facilidade. Mas algumas regiões parecem ter permanecido intocadas: O Jardim Europa com seus casarões , e uma parte mais antiga do Morumbi. Parecem mini cidades dentro de SP.

 Mas se você quiser realmente conhecer SP vá ao jardim São Jorge, Nakamura, Campo Limpo, Monte Azul  e outras vilas periféricas da Zona Sul. Temos aí outras pequenas cidades dentro da cidade. E dê um pulinho na Zona Leste até o Itaim  Paulista e Guaianazes. Lá as ruas são de barro, terra batida e não há árvores. As casas são de madeira ou alvenaria e a iluminação principal é a televisão.

E é importante saber que há pessoas que viajam de trem e ônibus duas horas para atravessar a cidade todos os dias. Esse é o verdadeiro rosto da cidade de SP : seus contrastes.

 Como carioca posso dizer que é possível amar duas cidades. Amo o Rio e amo SP. Existe uma dureza nessa cidade que me ensinou a viver mas sem perder a poesia que trouxe  comigo do Rio. Existe um charme , um ar cosmopolita nessa cidade que me faz  sentir como que viajando  constantemente por novos lugares, estilos e mistérios. Isso também é poético.

Não existe amor em SP

Um labirinto místico

Onde os grafitis gritam

Não dá pra descrever

Numa linda frase

De um postal tão doce

Cuidado com doce

São Paulo é um buquê

Buquês são flores mortas

Num lindo arranjo

Arranjo lindo feito pra você

Não existe amor em SP

Os bares estão cheios de almas tão vazias

A ganância vibra, a vaidade excita

Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel

Aqui ninguém vai pro céu

Não precisa morrer para ver Deus

Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você

Encontro tuas nuvens em cada escombro, em cada esquina

Me dê um gole de vida

Não precisa morrer pra ver Deus

http://youtu.be/f35HluEYpDs

O rapper Criolo dá uma aula de psicologia e de como viver na grande metrópole sem ser tragado.  Sabedoria de quem cresceu às custas do próprio esforço e talento. Mostra que “não existem fronteiras”para sua poesia como canta em outra música sua.

“No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos são bençãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo esses dois avatares coabitam, em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência.” Zigmunt Baumann

Na letra de criolo essa ambivalência está presente.

[…]”São Paulo é um buquê. Buquê são flores mortas. ”

[…] Numa linda frase

de um postal tão doce

Cuidado com doce

Como doce a megalópole atrai e vicia. Quem já comeu desse doce sabe. E Criolo sabe.

Costumo me aborrecer com a visão frequente do carioca como preguiçoso, vaidoso, inconsequente. É mais um esteriótipo de paulista a respeito de carioca.  Assim como carioca descrever paulista como careta, workaholic, e outros esteriótipos.

 Postei no Blog do jornalista André Forastieri algumas idéias que reproduzo aqui com alguns adendos. 

“É uma pena que a visão aqui presente do carioca seja a pasteurizada pela midia. A que se refere a uma classe média alta ou a um grupo “vip”do Rio de Janeiro que hoje está presente nas novelas da Globo.

Essa identificação do carioca com a Garota de Ipanema e com o malandro zona sul é muito redutiva e desmerece a importância da História do Rio de janeiro na História da sociedade brasileira. O Rio sediou nosso governo por muitos anos, é a casa do samba, é o berço da bossa-nova, queiramos ou não é onde a poderosa Globo se instalou e de onde consegue grande parte de seus talentos e musas.

 O cidadão pobre carioca sofre muito. Assim como qualquer outro no Brasil. O trem da Central do Brasil conta essa história presente no filme de mesmo nome.

Hoje é sede do tráfico  porque o turismo no Rio e a pobreza se conjugaram para que a exploração do sexo e das drogas tivesse lá espaço fértil .

Eu nasci no Rio e moro em São Paulo desde os 10 anos de idade.

Gosto das duas cidades. Ambas tem suas feridas. Se o carioca sofre de informalidade e às vezes falta-lhe um pouco de disciplina, o paulista exagera a formalidade e falta-lhe às vezes compaixão.

 O bom mesmo seria uma praia no final da Avenida Paulista e um pouco mais de “Chão” e estrutura de vida para o Rio de Janeiro. Amigos ?”