Quando uma convivência conjugal termina as borboletas do frisson sentido no estômago do tempo da paixão dão lugar aos sentimentos ambivalentes de alívio de tensão e de luto. A neurociência propõe que o cérebro tende a buscar a situação de equilibrio anterior através da inslação das antigas sensações.

Mas hoje o que temos é um imediatismo na busca de satisfação. Dessa espiral de busca sem limites, expressa também na ânsia de consumo, vemos um movimento ascendente em direção ao mundo e descendente em direção ao sujeito.

Jung descreve o processo de individuação como um movimento em espiral, de progressões e regressões.  Progredir e regredir aqui tem um sentido de compensação energética entre uma vivência e outra. Precisamos de um tempo para evoluir de um estado de consciência para outro. Restabelecer o equilibrio é  apontar para algo novo. Não é voltar ao estado anterior da alma. Porém, regredir é também caminho para progredir. O grande desafio é reencontrar, em outro formato, a experiência de satisfação e a criatividade que diante do luto se arrefeceram.

Trazer de volta as borboletas do desejo , da alegria e da esperança exige um intenso trabalho psíquico.  Não é suficiente encontrar um outro parceiro amoroso.  O caminho do pleno gozo é o caminho de encontro consigo mesmo quando os humores da libido trazem de volta as borboletas.

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No artigo “Cérebro luta contra o fim do amor ” de Débora Mismetti, publicado em 11/6/2010 na Folha de São Paulo entende-se que ficar só não é o melhor método para a cura de uma ferida do amor que acabou. O cérebro tenta restaurar a situação de recompensa e de satisfação experimentada enquanto o amor ainda estava vivo.A visão da neurologia contrasta com a da psicanálise desde seus primórdios que propõe a vivência do luto como condição da elaboração da perda. Ficar só e mergulhar na tristeza seria um caminho de elaboração que se afasta da solução maníaca de repor rápidamente o objeto de investimento amoroso. Trocar rápidamente de parceiro também pode ser uma forma de negação da perda.

A empatia experimentada anteriormente ficou sem objeto mas é necessário viver o vazio para que se possa instalar um novo espaço de acolhimento para um novo amor, uma nova empatia. O que você acha disso?

O artigo em questão afirma que as borboletas no estômago surgem no começo da relação, reduzem no meio e ressurgem no final. Será?

Há relações que esfriam completamente e acabam “sem borboletas”. Elas voaram para outro lugar: estão escondidas no inconsciente para escapar da ameaça de morte: a morte da libido experimentada quando as relações esfriam. Borboletas “histriônicas” às vezes permanecem no local de costume .

Na análise de casais o que vejo é que ao final da relação , as borboletas quando não estão escondidinhas no inconsciente, voaram para um outro estímulo atraente à libido: uma outra pessoa, o trabalho, um vício ou as fantasias, agora afastadas da relação. No estômago… um vazio.

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Sexo Hoje

16/05/2010

Na pratica clinica observo que a alteridade no relacionamento afetivo é hoje um desejo oculto presente na sombra coletiva: o desejo de uma relação baseada no respeito, na valorização de si e do outro.

Apesar da revolução sexual dos anos 1960 ainda assistimos os conflitos de poder permeando o exercício da sexualidade e os relacionamentos afetivos.

Um exemplo na atualidade, que circulou pela mídia  é o do uso das pulseiras pelos adolescentes para expressarem seus desejos de aproximação sexual com os amigos. Dado que essa prática foi seguida de episódios de violência contra alguns adolescentes e pré- adolescentes foi proibida na rede escolar do Rio de Janeiro. A associação simbólica entre sedução sexual e violência está aí presente. Outro episódio semelhante foi a agressão à estudante universitária porque estava de mini-saia. Essa atitude demonstra a presença ainda de uma moral sexual permeada pela desigualdade de direitos entre os gêneros e pelo preconceito em relação à iniciativa sexual da mulher.

Ao contrário de reprimir o sexo, nossas crianças e adolescentes necessitam de um acolhimento e orientação em relação ao seu desejo e fantasias.

Outro fato recorrente na clinica é de homens que tem se apaixonado e estabelecido relações estáveis com suas garotas de programa. Essas relações seguem o modelo patriarcal de dependência da mulher de menor poder aquisitivo e status social ao homem.  Muitos conflitos aparecem e o forte elemento motivador consciente é a maior satisfação sexual com essas mulheres. Porém, observo a extrema necessidade de acolhimento emocional desses homens.

De outro lado, mulheres bem sucedidas reclamam do abandono dos homens que competem com sua autonomia e as abandonam sexualmente, muitas vezes apresentando sintoma de impotência sexual com elas. Esse fato independe da idade dos parceiros. No consultório aparece também a queixa dos homens que em função de conflitos de autoridade frente a uma mulher bem sucedida e independente, não conseguem se relacionar sexualmente com a companheira.

No consultório verifico que mulheres  vivem conflito de auto-estima quando uma relação que resultou de iniciativa e sedução mútua entre os parceiros é interrompida pelo homem após poucos encontros. Uma moral machista da mulher se oculta atrás do sentimento de desvalorização apesar da suposta simetria entre os gêneros.

Outra questão é a proliferação dos locais e da prática do swing que nos relatos surge muito mais como um espaço de afirmação narcísica do que de compartilhamento.Um exercício mais auto-erótico e de afirmação pessoal do que uma troca entre parceiros. Um outro aspecto é o desenvolvimento das substâncias farmacêuticas como o Viagra ou a oxitocina, que podem alimentar a idéia de que podemos ter um controle absoluto de nossas emoções e de nossa sexualidade.  Mal entendido que deixa de entender o amor e o sexo como produtos de um ecosistema humano, resultado da interação humana com outros humanos e com o meio ambiente.

Diante desses fatos coloco em debate.  Quanto e em que progredimos na nossa prática sexual e amorosa desde a queda do patriarcado?

Autora : Célia Brandão 15/5/2010

Saudades

10/09/2009

nícolas 044Amor mio, nos hemos

encontrado sedientos

y nos hemos bebido

toda el agua y la sangre,

nos encontramos con hambre y nos mordimos

como el fuego muerde,

dejándonos heridas…

…Pero…espérame,

guárdame tu dulzura.

Yo te daré tambiém una rosa.

 Pablo Neruda.

boat outside pablo neruda homeFinalmente  fui ver a exposição de Sophie Calle no Sesc da Pompéia e foi um presente. Exposição muito bem montada , fazendo juz ao trabalho de Sophie. O ponto alto são os vídeos com as performances de algumas das mulheres para quem Sophie enviou  o e-mail  que recebeu de seu namorado rompendo a relação. Entre o patético, o cômico, o irônico, o “nonsense”,  a raiva, a indiferença, a tristeza, até a cena expressiva de uma cacatua que repete a expressão : “cuide de você” várias vezes, além de algumas outras da carta .  Poderia repetir qualquer frase que lhe fosse ensinada.

cacatua

Todo mundo fala eu te amo  como disse Woody Allen, e, no instante seguinte, no mesmo e-mail,  cuide de você  ( Prenez soin de vous).  O vídeo mostra as múltiplas interpretações da carta e, principalmente, o que me parece importante é que  dizer:  cuide  de você,  é absolutamente desnecessário para quem vai embora. Estou indo embora mas o seu amor foi muito importante para mim ou algo semelhante. É diálogo de cacatua, repete frase feita. Não considera o outro.

O Último Tango em Paris

O Último Tango em Paris

Um filme marcou os anos 70 – O Último Tango em Paris de Bernardo Bertorlucci com Marlon Brando e Maria Sheneider. Quando não há separação, entre o eu e o outro não há projeto de relacionamento possivel. O que é um problema para um, a angústia de um não é problema para o outro. As relaçoes simbióticas apresentam vínculos especulares estabelecendo padrões narcisistas de comportamento. A dinâmica simbiótica está na dificuldade do casal de simbolizar frente a situações de ameaça ou frustração. O anonimato concretiza a possibilidade massiva de projeções. No filme,”O Último Tango em Paris” o casal permanece no anonimato e quando êle resolve revelar sua identidade, ela foge afirmando que não o conhece. Quando ele resolve insistir ela mata a única testemunha de seu desejo e de suas fantasias. Como amamos em 2009 ?