“O símbolo não é uma alegoria nem um Semeion ( sinal) mas a imagem de um conteúdo em sua maior parte transcedental ao consciente. É necessário descobrir que tais conteúdos são reais, são agentes com os quais um entendimento não só é possível mas necessário. Com este descobrimento compreender-se-á  então do que trata o dogma, o que êle formula e a razão de sua origem.” ( Jung Carl G -Símbolos da transformação- par. 114)

A noção de símbolo aparece na Psicologia Analítica  de Jung atrelada a um outro conceito- o de função transcendente que designa a   capacidade da mente de simbolizar não só em termos de seu conteúdo mas de sua função. Cria transições de uma atitude para outra , de um estado existente da experiência para outro ou de um estágio de desenvolvimento para outro.  O analista nessa perspectiva tem a função de mediador , ou seja, de continente de sentimentos e emoções que o ego do paciente não consegue reintegrar.  A capacidade de experenciar simultaneamente o eu e o não eu define a matriz do pensamento reflexivo. A função simbólica envolve a experiência da representação devido a experiência do “como se” ao invés da identificação e  do reconhecimento das semelhanças em objetos que são ao mesmo tempo vistos como existências separadas.

A capacidade de simbolizar pode ser desarticulada e impedida se certas condições de desenvolvimento não estiverem presentes.

O jogo simbólico é o predecessor  do trabalho criativo.

O jogo define a área da experiência onde a experiência sensorial encontra a atividade imaginativa – o jogo com atividades emocionais.  Nessa área se constrói o espaço da análise.

A necessidade de dar  ordem e sentido às vivências emocionais encontra expressão na criação e descoberta de formas de relacionamento entre analista e cliente. O processo analítico une processos cognitivos e emoção. A técnica é construída a cada momento e com cada paciente. Nesse sentido psicoterapia é também arte. É um espaço ritual importante para a integração de sentimentos e de aspectos da personalidade.

Como em um rito se caracteriza também pela repetição da cena principal, a sessão de análise. Nesse sentido, toda sessão de análise é um ritual simbólico. A criatividade está no “como se” da atividade imaginativa que a cada experiência transforma os sujeitos, analista e cliente.

Os ritos de iniciação costumam conectar o simbolismo de morte e renascimento.  Nesses rituais em que o neófito fica recluso,  simula-se seu incineramento em lugar fechado, como uma cova, e, posteriormente, este reaparece como que vomitado da boca de um monstro. Deve sofrer, morrer e ressuscitar. De forma análoga , esse processo ocorre quando nos propomos a um mergulho no desconhecido de nós mesmos.

A análise e a psicoterapia se afastam do alvo do ajustamento.  Apesar disso, não podemos enganar o processo criativo aceitando a desorientação como inevitável precursora da inspiração.  Nesse domínio de realidade, imagens e temas arquetípicos são deintegrados  da matrix indiferenciada do self. Não foram ainda re – integradas no ego e criam estados de desintegração  até que sejam assimiladas.

O criativo em psicologia não age exclusivamente dentro dos limites de uma pessoa, dos processos simbólicos e vivências de uma individuação particular. A criatividade psicológica toma o próprio indivíduo e a comunidade como obra a ser realizada. Desse fato  o papel criativo e a responsabilidade social de um analista.

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Quando uma convivência conjugal termina as borboletas do frisson sentido no estômago do tempo da paixão dão lugar aos sentimentos ambivalentes de alívio de tensão e de luto. A neurociência propõe que o cérebro tende a buscar a situação de equilibrio anterior através da inslação das antigas sensações.

Mas hoje o que temos é um imediatismo na busca de satisfação. Dessa espiral de busca sem limites, expressa também na ânsia de consumo, vemos um movimento ascendente em direção ao mundo e descendente em direção ao sujeito.

Jung descreve o processo de individuação como um movimento em espiral, de progressões e regressões.  Progredir e regredir aqui tem um sentido de compensação energética entre uma vivência e outra. Precisamos de um tempo para evoluir de um estado de consciência para outro. Restabelecer o equilibrio é  apontar para algo novo. Não é voltar ao estado anterior da alma. Porém, regredir é também caminho para progredir. O grande desafio é reencontrar, em outro formato, a experiência de satisfação e a criatividade que diante do luto se arrefeceram.

Trazer de volta as borboletas do desejo , da alegria e da esperança exige um intenso trabalho psíquico.  Não é suficiente encontrar um outro parceiro amoroso.  O caminho do pleno gozo é o caminho de encontro consigo mesmo quando os humores da libido trazem de volta as borboletas.

 

 

Mariana blog

Foto de Mariana Brandão

Durante sua formação o analista realiza incursões profundas em seus afetos e se deixa afetar, influir pelo outro. Podemos entender esse outro como uma abstração, como parte da configuração psíquica de todo indivíduo, ou então, como o outro “de fato”, aquele que existe além de mim.

Cabe ao terapeuta a partir de suas experiências anímicas buscar a compreensão do outro. O que nos desafia é sempre a outra alma humana. As limitações estabelecidas pelo outro são sentidas em qualquer relacionamento ora como a gratificação e redenção ora como a tragédia da própria relação.

A forma de compreensão que temos de nossas vivências emocionais pode conduzir nossos desenvolvimentos para caminhos mais ou menos saudáveis.

É esse o papel do terapeuta e do analista: caminhar junto com seus pacientes como mediador da busca de uma melhor qualidade de comunicação com seu inconsciente e símbolos.

A esse caminho de auto-construção que se dá a partir da relação dialética entre consciência e inconsciente Jung chamou de processo de individuação.

Bem, mas trocando em miúdos, o que é análise mesmo ? Só passando por ela.