caduceu-em-seloPsicologia e humor 50: A mediação de conflitos envolve empatia crítica. No curso que dou no Sedes Sapientiae sobre mediação e violência, parte do curso da Silvana Parisi “Dimensão Amorosa: Um enfoque Junguiano”, enfatizo a empatia, não como relativismo moral e nem o moralismo fácil, termos de Jonathan Jansen, reitor da Universidade de Free State, South Africa. Empatia é aproximar-se do outro sem pré- julgamentos e compreender que sob determinadas circunstâncias todos podemos ser injustos e sermos capazes de violência. Empatia é também reconhecer-se no outro. Nesse sentido somos todos vulneráveis. Rejeitamos o outro para nos defendermos mas a ameaça está em nós mesmos. Os passos são: integração, reparação e reconciliação. Só dessa forma podemos falar em relações amorosas. Celia Brandão.

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Empresas Familiares

27/01/2011

Freud ao refletir sobre a etiologia  da neurose apontou dois fatores de satisfação e de conflito primordiais  humanos: o amor e o trabalho.

Quando amor e trabalho apresentam uma grande área de intersecção como é o caso das empresas familiares  emergem conflitos  muitas vezes impossíveis de serem contornados  que levam à falência do negócio ou ainda dos projetos individuais. Se o foco deixa de ser no negócio e a familia vê na empresa apenas  o lugar da preservação do seu  patrimônio afetivo e material, a possibilidade de estagnação do processo de crescimento da empresa existe.

Algumas questões são centrais para uma reflexão sobre o tema :

. De que modo o modelo de exercício da autoridade presente na familia pode influir no estilo de liderança predominante em uma empresa?

. Como os conflitos familiares, desejos e fantasias dos membros da familia extravasam na empresa e quais são as consequências disso?

Em uma empresa familiar temos dois sistemas interagindo:  a familia e a organização. Esses sistemas interagem segundo o esquema conceptual operativo do grupo Empresa/ Familia. Segundo Pichon Riviére, todo grupo tem uma tarefa inconsciente que se não for decodificada pelo próprio grupo poderá atuar como bloqueio na realização das operações ou tarefas  do mesmo grupo. A tarefa inconsciente se não for decodificada se constituirá como sombra grupal .

Os sentimentos que cada membro da familia desperta em cada um dos demais, a forma como cada anseio é ou não compartilhado também são vividos pelo consultor através da contratransferência.  A contratransferência é um termo cunhado por Freud para se referir as emoções do analista durante a análise, motivadas pelas fantasias e emoções do cliente . Hoje é entendida como ferramenta de trabalho na análise e nas intervenções de caráter clínico, na abordagem  psicodinâmica . Na contratransferência atuam projeções de conteúdos do cliente para dentro do analista e vice-versa. A forma como o profissional se identifica com esses conteúdos definirá seu modo de interação com seu cliente. Da mesma forma na transferência o cliente projetará conteúdos emocionais no analista e se identificará de várias formas com seu analista. O fulcrum dos processos transferenciais é a emoção  dos envolvidos. A aplicação desses conceitos à psicologia das organizações possibilita o trabalho com conflitos para os quais um trabalho apenas através de uma abordagem cognitiva não teria sucesso. A contratransferência do consultor e a transferência do cliente são fonte de entendimento das relações interpessoais na organização.

Um conceito familiar à Psicologia Junguiana é o de simbolo. O símbolo conecta o que aparentemente estava separado e recupera o sentido. A análise dos mitos grupais possibilita a compreensão simbólica dos valores que regem uma instituição ou grupo. Se nos mantivermos atentos aos temas das narrativas e diálogos,  estaremos mais próximos de uma compreeensão dos mitos, fantasias, idealizações, presentes nas ações grupais.

Tomando como referência o conceito de inconsciente coletivo junguiano, através de uma análise dos mitos grupais poderemos entender temas centrais nos conflitos grupais , como também entender seus  potenciais , anseios e valores.

O consultor e o mediador passam a fazer parte da trama de relações a partir do momento em que inicia o processo de acessoria a um grupo. Serão envolvidos no processo através da projeção feita pelo grupo dos conteúdos inconscientes grupais  a serem trabalhados.

Da mesma forma , nos empreendimentos familiares , as práticas empresariais serão afetadas pelas necessidades afetivas da familia e por seus anseios. Sem trabalhar com as emoções do grupo e com as próprias o profissional terá dificuldade de cumprir sua tarefa de mediador de conflitos.

Os aspectos positivos dos laços afetivos assim como seus aspectos negativos serão matéria – prima do trabalho.  Conflitos pessoais não resolvidos, rivalidade entre familiares, diferentes anseios sobre a empresa são fatores cruciais para o sucesso ou fracasso do empreendimento familiar.

Consultório Celia Brandão

Consultório de análise e mediação- Celia Brandão.

Papel da mediação de conflitos : projeto de lei sobre Mediação (Projeto de Lei da Câmara nº 94, de 2002),  prevê:

Art. 2º Para fins desta Lei, mediação é a atividade técnica exercida por terceiro imparcial que, escolhido ou aceito pelas partes interessadas, as escuta, orienta e estimula, sem apresentar soluções, com o propósito de lhes permitir a prevenção ou solução de conflitos de modo consensual.

Art. 24. Considera-se conduta inadequada do mediador ou do co-mediador a sugestão ou recomendação acerca do mérito ou quanto aos termos da resolução do conflito, assessoramento, inclusive legal, ou aconselhamento, bem como qualquer forma explícita ou implícita de coerção para a obtenção de acordo .

É um método de facilitação de diálogo.

Mediar é transformar a cultura do conflito no exercício do diálogo. A solução está na abordagem não adversarial do conflito através do respeito às diferenças.

Um mediador pode ser confundido com um juiz, com alguém que tem o poder de arbitrar sobre alternativas para a solução de um conflito. Porém, cabe ao mediador não a arbitragem mas o papel de tornar diálogos difíceis em uma comunicação aberta e franca entre as partes em litígio. 

Ao nos depararmos com opiniões e interesses divergentes em relação aos nossos, nos sentimos ameaçados. O lado conservador da psique teme a dissociação. Para fugir à dissociação um recurso comum utilizado é a negação da legitimidade da opinião diversa ou até mesmo da identidade do outro.

Em um conflito de interesses é necessário ponderar necessidades e possibilidades.

Em um processo de separação conjugal , por exemplo, cabe ao mediador, promover o diálogo que avalie as condições , as possibilidades de cada um dos cônjuges no que se refere à pensão alimentícia, guarda de filhos, patrimônio. O debate deve ponderar sobre direitos e responsabilidades.

Na linguagem de Derrida, devemos discriminar que e quem deve “responder por”e “responder a”. Com a aprovação da lei da guarda compartilhada ambos os pais poderão assumir diretamente a responsabilidade sobre a educação e cuidar do cotidiano dos filhos. Guarda compartilhada não é alternância de residência mas sim cooperação legítima entre os pais na criação dos filhos pela qual responderão ambos perante a justiça. 

Hoje, para  uma situação de divórcio não há mais respaldo jurídico para o atributo a uma das partes de culpabilidade pela separação. Ambos os conjuges são responsáveis por sua decisão.  Cabe ao processo de mediação procurar  defender os interesses dos membros da familia resguardando a integridade dos mesmos longe das disputas de poder.

A mediação familiar em familias vítimas de violência, trabalho que realizei na Ong Pró-mulher, Familia e Cidadania, onde ocupei cargo de coordenação técnica, e na Ong Ceaf ( Centro de Estudos e Assistência à Familia), revelou-se como método eficaz para resgatar a auto-estima da vítima e desencadear processo de reintegração social do agressor.  

Em casos de abuso contra a criança, o mediador tem um papel central no estabelecimento de um ambiente seguro onde a vítima de abuso possa recuperar o direito à escuta e à memória dos fatos traumáticos. A ferida de abuso traz como  seus componentes o sentimento de ameaça, o sentimento de culpa e a repressão da memória da situação de abuso. Dar voz àquele que se calou sob o pacto do silêncio é tarefa do mediador.

Quando os lugares dentro da familia ou do grupo estão ameaçados e os poderes até então vigentes estão falidos temos um contexto favorável à violência.

Legitimar o conflito mas não cultuá-lo e promover o diálogo é combater a violência. Essa é a tarefa do mediador.