De quem é a cidade? Eis a questão. A metrópole em sua exuberância atrai e assusta. É uma grande mãe nutridora, nos seus recursos e caminhos por onde nos buscamos: ruas, avenidas, alamedas.

A cidade não dorme. Vigia com seus olhos de grande mãe as nossas madrugadas. De quem são as madrugadas? Quem tem casa, herança e aconchego desaparece da rua na madrugada. Perambulam pelas ruas aqueles que estão em busca de um lugar. A cidade à noite é dos moradores de rua, do tráfico, do andarilho que se aconchega nos becos úmidos e sem luz. Seus pertences caminham junto a ele que os carrega para onde vai. Não tem território. Sua identidade está atrelada ao que com ele caminha.

 Quem anda pela cidade à noite , experimenta possuí-la e confrontando seus mistérios e ameaças sai vitorioso, sobrevivente mais uma vez ao seu poder devorador. Onde pisou fez território, arquetipicamente ancorado, fez identidade.

 Dar um rolê pela cidade é se entregar ao imponderável, à possibilidade de ser surpreendido, sem perder o equilíbrio das pernas. É buscar espaço de identidade em um mundo povoado pela incerteza.  O skate é extensão de um corpo, das pernas que firmam posse de território , direito à liberdade e à identidade.

O jegue

20/09/2009

jegue 2

 

Um porteiro de prédio em São Paulo perguntou ao outro se sabia quem puxava carroça lá em Sergipe. O outro disse… cavalo?..

Eu ía passando, me intrometi na conversa e disse: jegue. O outro imediatamente retrucou : Isso. Jegue! E continuou falando: Mas aqui em São Paulo, é gente que puxa carroça.

  Eu disse em seguida: Você quer dizer que aqui gente e jegue é às vezes a mesma coisa?

 Ele respondeu pensativo: É… A conversa continuou entre os dois.

 Sai pensando …. Pior que isso. Jegue é uma “celebridade” no nordeste, tem direitos, cuidados, tempo de serviço, funeral com homenagem, divide comida com o patrão, carinho, amor,  e sua casa não é a carroça que puxa. Pertence a algum lugar, sentem sua falta quando se afasta de casa, tem sua identidade reconhecida.