Psicologia e Humor

26/06/2015

Psicologia e Humor 37: O que ocorre quando você viaja com excesso de bagagem? Ou paga multa ou tem que deixar uma parte fora da viagem. Os seres humanos possuem talentos que são aprimorados e junto com sua experiência de vida constituem “sua bagagem”. Construir uma bagagem demora anos de vida. Mas o mais difícil é acomodar devidamente e em proporções adequadas essa bagagem nos relacionamentos e diferentes situações e momentos.
Não existe situação mais desagradável do que conversar com uma pessoa que joga sua bagagem, no banco do passageiro entre você e ela, espremendo você contra a porta, mesmo quando nesse momento é você o motorista. O mais difícil não é ter bagagem , é saber adequá-la às situações. Em um dia ser simbólicamente, motorista e, em outro, aceitar ser conduzido, ser passageiro nos relacionamentos. Celia Brandão

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Palestra de Celia Brandão no Clube Providência em Santiago do ChileA palestra versou sobre o abuso de poder e o pacto de silêncio , cenário do abuso contra crianças e adolescentes. O tema foi ampliado para as várias formas de abuso de poder. A técnica de mediação de conflitos foi alvo de reflexão.

Consultório Celia Brandão

Consultório de análise e mediação- Celia Brandão.

Papel da mediação de conflitos : projeto de lei sobre Mediação (Projeto de Lei da Câmara nº 94, de 2002),  prevê:

Art. 2º Para fins desta Lei, mediação é a atividade técnica exercida por terceiro imparcial que, escolhido ou aceito pelas partes interessadas, as escuta, orienta e estimula, sem apresentar soluções, com o propósito de lhes permitir a prevenção ou solução de conflitos de modo consensual.

Art. 24. Considera-se conduta inadequada do mediador ou do co-mediador a sugestão ou recomendação acerca do mérito ou quanto aos termos da resolução do conflito, assessoramento, inclusive legal, ou aconselhamento, bem como qualquer forma explícita ou implícita de coerção para a obtenção de acordo .

É um método de facilitação de diálogo.

Mediar é transformar a cultura do conflito no exercício do diálogo. A solução está na abordagem não adversarial do conflito através do respeito às diferenças.

Um mediador pode ser confundido com um juiz, com alguém que tem o poder de arbitrar sobre alternativas para a solução de um conflito. Porém, cabe ao mediador não a arbitragem mas o papel de tornar diálogos difíceis em uma comunicação aberta e franca entre as partes em litígio. 

Ao nos depararmos com opiniões e interesses divergentes em relação aos nossos, nos sentimos ameaçados. O lado conservador da psique teme a dissociação. Para fugir à dissociação um recurso comum utilizado é a negação da legitimidade da opinião diversa ou até mesmo da identidade do outro.

Em um conflito de interesses é necessário ponderar necessidades e possibilidades.

Em um processo de separação conjugal , por exemplo, cabe ao mediador, promover o diálogo que avalie as condições , as possibilidades de cada um dos cônjuges no que se refere à pensão alimentícia, guarda de filhos, patrimônio. O debate deve ponderar sobre direitos e responsabilidades.

Na linguagem de Derrida, devemos discriminar que e quem deve “responder por”e “responder a”. Com a aprovação da lei da guarda compartilhada ambos os pais poderão assumir diretamente a responsabilidade sobre a educação e cuidar do cotidiano dos filhos. Guarda compartilhada não é alternância de residência mas sim cooperação legítima entre os pais na criação dos filhos pela qual responderão ambos perante a justiça. 

Hoje, para  uma situação de divórcio não há mais respaldo jurídico para o atributo a uma das partes de culpabilidade pela separação. Ambos os conjuges são responsáveis por sua decisão.  Cabe ao processo de mediação procurar  defender os interesses dos membros da familia resguardando a integridade dos mesmos longe das disputas de poder.

A mediação familiar em familias vítimas de violência, trabalho que realizei na Ong Pró-mulher, Familia e Cidadania, onde ocupei cargo de coordenação técnica, e na Ong Ceaf ( Centro de Estudos e Assistência à Familia), revelou-se como método eficaz para resgatar a auto-estima da vítima e desencadear processo de reintegração social do agressor.  

Em casos de abuso contra a criança, o mediador tem um papel central no estabelecimento de um ambiente seguro onde a vítima de abuso possa recuperar o direito à escuta e à memória dos fatos traumáticos. A ferida de abuso traz como  seus componentes o sentimento de ameaça, o sentimento de culpa e a repressão da memória da situação de abuso. Dar voz àquele que se calou sob o pacto do silêncio é tarefa do mediador.

Quando os lugares dentro da familia ou do grupo estão ameaçados e os poderes até então vigentes estão falidos temos um contexto favorável à violência.

Legitimar o conflito mas não cultuá-lo e promover o diálogo é combater a violência. Essa é a tarefa do mediador.

42-21572250 

Foi com muito pesar que li uma matéria publicada no Jornal Le Monde sobre o assassinato da menina Isabella, de 2008, atribuindo a violência doméstica no Brasil ao fato da tardia Abolição da Escravatura (1808) e aos modelos “adquiridos”de educação. Como se esse modelos de discriminição e desigualdade social tivessem sido gerados aqui no Brasil, quase como uma geração espontânea, como algo atávico, como nossa identidade. As crianças e as mulheres, assim como os negros e os países do terceiro mundo são há alguns séculos o que conhecemos como excluidos no que se refere à sua situação como  sujeitos de direitos e  Estado de direitos respectivamente.

O fato de se saber que no Brasil o genocídio assume índices preocupantes com autores dentro das familias e não só pela policia, nos faz responsáveis socialmente e como profissionais da área de psicologia para pensar essa questão.

Mas passa a ser uma arrogância da Velha Europa esse comentário no Le monde que nas semanas próximas ao crime de Isabella circulou pelo mundo noticia de uma outra familia de classe média austríaca em que o pai manteve em cativeiro a filha que também tomou como concubina e mãe de seus netos também cativos.

Enquanto continuarmos projetando nossa sombra no outro, enquanto temermos nossa humanidade, creio que será muito dificil lidar com a questão da violência que não escolhe raça, país, classe social, e que nos assola.

Pensamos de maneira equivocada sobre a violência como um epifenômeno do poder.

É quando o poder legítimo perdeu a sua força, quando o sentido ético se perdeu , que ocorre a violência, o abuso do poder e o pacto do silêncio. Quando os rituais não funcionam e os papéis dentro da familia se perderam. Quando já não há interdição para conter os conflitos dentro da familia.

A ameaça de perda da autoridade pelos pais, ou qualquer diminuição do poder legítimo dos pais são um convite à violência. O abuso do poder é prova documental da inexistência e da fragilidade da autoridade das figuras parentais e dos vínculos dentro da familia.

O pacto do silêncio é o recurso utilizado pelos agressores para manter a situação do abuso, favorecendo o espaço da violência.

O tema do incesto tem sido um dos mais assiduamente visitadossnow4 no blog.

Entre o mito e a cultura, a questão do incesto tem  sido discutida em várias áreas das ciências humanas, pelas artes cênicas e literatura, pela área jurídica e pela religião.

A palavra incesto quer dizer estar contido in (dentro )  (cesto) .

Viver a intimidade e emoções em situação protegida. Pode ser análogo a estar em uma situação  de endogamia, em sua origem antropológica.

Para Jung as fantasias incestuosas de uma criança tem a função de humanização  de suas emoções nas relacões com seus familiares.

Se por ventura se acompanham de conteúdos sexuais não devem ser literalizados.

Podem estar apenas assinalando uma busca de maior intimidade e fusão para que depois possa haver um outro nível de discriminação.

Se existe um tabu do incesto ele emerge com o próprio impulso incestuoso, de uma dimensão ética do indivíduo e um sentido de preservação das relações grupais e não da repressão advinda de uma moral externa.

A busca de um adolescente ou de uma criança na relação com um adulto pode ter diferentes motivações, como por exemplo, entre uma aluna e um professor, a de admiração e curiosidade intelectual.

Se a curiosidade  e o desejo sexual se acrescentam a essa admiração  grande parte das vezes é mais por parte do adulto e cabe a este o papel de estabelecer os limites.

A sexualização imediata pode ser mais do adulto,  resultante de uma projeção de suas fantasias na criança ou adolescente.

A possibilidade de trabalhar com os conteúdos de idealização e admiração sem cair nas armadilhas da sedução poderá resultar em desenvolvimento mútuo.

Um sentido de auto- preservação coloca o homem em conflito diante de situações que abalam o equilibrio e a coesão do  seu grupo.

Nossa tendência é negar e afastar da consciência o que nos causa conflito. O mecanismo de negação  e a alienação não resolve nossos problemas.

A questão do incesto é complexa e faz parte da natureza humana.

É muito importante considerar as diferenças presentes nas relações incestuosas mais ou menos abusivas, mais ou menos assimétricas, e para isso é necessário ver caso a caso.

Incesto não é sinonimo de abuso.

Mas, em geral as relações incestuosas , que se dão dentro da familia , são abusivas.