Envelhecer

07/03/2014

560316_357989944243527_1806856118_nEnvelhecer é uma conquista disse Eliane Brum. “Plagiando” a autora digo que essa idade não é a melhor idade mas é a de maior liberdade e dignidade adquiridas. Daqui a um tempo direi que nessa época ainda estava jovem e é essa magia do tempo relativizando a vivência do próprio tempo passando que nos mantém sempre em busca de um novo que nos fará renascer. E é essa renovação constante que relativiza o sentimento de perda daquilo que vai morrendo.

Por isso, nessa fase da vida é possível ao sujeito se aventurar a uma viagem por lugares ainda desconhecidos. Cair e se levanter com a mesma naturalidade e experimentar com prazer continuar inteiro. O que antes assumia o caráter de extrema contradição não representa mais a mesma intensidade de conflito. As polaridades se aproximam. O corpo , por vezes fraqueja mas o desejo e a vontade de auto- superação não.

Poder envelhecer é ser vitorioso, é ter renascido de várias dores, perdas, desatinos. E é poder comemorar realizações e a ultrapassagem de obstáculos, ter vencido o mêdo, o proprio mêdo de envelhecer. Não ter desistido.

É descobrir que a criança que se foi é guia do velho que nos tornamos. Ela continua com a gente. Caminhou com a gente pelos lugares do passado e no presente continua viva , ainda se encantando com as surpresas da vida.

Elas não acabam! Só acabam para quem desistiu.

É irritante quando alguém ao se deparar com a alegria e o vigor de uma mulher de mais de 50 anos observa: Está apaixonada ? De namorado novo?

Ah…a resposta vem na ponta   da língua: Sim! Apaixonada por mim mesma. Apaixonada pela vida!

E não há motivo mais forte para alguém se cuidar e vibrar  nessa fase da vida do que o próprio apego à vida. Continuar vivendo e bem é um motivo fortissimo para alguém que envelhece gastar horas do dia cuidando-se, não querendo perder de todo o pulsar e o fulgor da juventude.

Mas seria isso caminhar contra a morte? Não. A morte é inevitável. Isso é se entregar ao vivo que caminha também para a morte. Não um caminho para a morte como fuga mas  como parte do percurso. Dela nada podemos falar. Mas podemos assegurar que o percurso vale à pena.

Saber conviver com velhos é um bom caminho para quem é jovem e também vai envelhecer. Velhos são pessoas corajosas que não desistiram.

24/09/2013

Insônia

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Insônia

Velas pelos cantos.

Sombras e mais sombras.

Que venham os sonhos!

Já não os temo.

Nem um piscar de olhos.

Consciência quase atenta.

Vigia do pensamento.

O cetim gelado…

Colado ao corpo quente,

Deslizo fantasias.

O suor desenha no teu peito

Cheiros, texturas, formas.

Enquanto dormes.

Livro publicação GV / Saraiva.

Um capitulo desse livro é meu: Sucessão Familiar: Identidade e poder nas relações homem e mulher. Interfaces com a psicologia da familia empresária.

Pais e filhos

01/04/2013

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O difícil é nos desapegarmos das projeções recíprocas entre pais e filhos para empreendermos nossas escolhas. Os filhos devem desidealizar os pais, assim como os pais devem desidealizar os filhos na direção da autonomia de ambos. Não acredita que seja possível? Depois de muito caminho andado entendo que o processo de individuação abrange vários momentos que envolvem impasses entre escolher, eleger um caminho ou outro. Caminhamos entre momentos de fusão com nossas idealizações e de desapego que envolvem processos difíceis de desidealização. Freud falou da desidealização dos filhos em relação aos pais através da elaboração do complexo de castração que nada mais é que uma espécie de sacrifício do ideal do ego que funda a construção da lei. Mas Jung amplia a noção de complexo e podemos entender que as projeções são recíprocas. Não há filho que cresça ainda preso às idealizações de seus pais. No plano da cultura temos também as idealizações presentes na consciência coletiva que atuam muitas vezes de forma perversa nos processos de escolha, inclusive profissional como aponta também Bourdieu. Os pais crescem junto a seus filhos através também da elaboração das idealizações do seu papel na vida dos filhos que vai se transformando durante toda a vida. Filhos criados trabalho dobrado? Assim diz o ditado. Seria mais fácil nos relacionarmos com o filho como extensão de nós mesmos? O bebê come o que lhe oferecemos. Não sabe escolher e portanto não tem autonomia. O seu critério de escolha é apenas o seu prazer. Por ele comeria 500 gramas do doce mais gostoso se conseguisse. Mas o seu critério de limite ainda é frágil. Cuidamos de nossos filhos pequenos dentro dos nossos critérios de adequação. 

Um dia esses mesmos filhos cresceram  e suas escolhas nem sempre correspondem às nossas projeções. De outro lado, idealizam também nossa aprovação segundo seus critérios e parâmetros contidos nas imagens do pai e da mãe.

Papai e mamãe gostariam que estudasse isso ou aquilo , se casasse com fulano(a) de tal, tivesse primeiro um filho (a)  e outras tantas idealizações dos ideais dos pais. Essa extrema idealização deve ser interrompida para que os sujeitos emerjam em suas identidades e autonomia. Quanto mais intensas as projeções recíprocas das idealizações mais dificil será a  convivência entre pais e filhos a partir da adolescência.  Agora ele escolhe e pode ser que você não seja seu principal modelo de identificação. Esse é um luto vivido pelos pais. Mas também pelos filhos que devem se desapegar da segurança do sentimento de fusão com seu objeto de afeto  e experimentar a ambivalência da tarefa de escolher.

Filhos criados, trabalho emocional dobrado, complementando o ditado!

   

 

 

 

•Cabe ao profissional de mediação atuar preventivamente , na negociação ética de conflitos.  Deve atuar também junto ao conflito da consciência individual identificada com padrões de relacionamento socialmente aceitos que se mantém em detrimento de uma liberdade legítima de escolha e de julgamento  do indivíduo.

•A “quadrata figura”que aparece como símbolo da lapis no centro da mandala alquímica, cujo ponto central é o mercúrio recebe o nome de mediador  (mediator), o que promove a paz entre os inimigos.” Jung,CW vol 9,1par 549 nota 61. Entre a dualidade do eu e a dualidade do outro.
•Hermes  associa –se à idéia do redondo e do quadrado. Totalidade constituída de quatro partes ou quatro elementos.

•De acordo com uma concepção antiga, o mercúrio é duplex, isto é, ele é uma antítese em si mesmo. Mercúrio ou Hermes é um mago     e um deus dos magos. “
•“Sua vara mágica, o caduceu, é envolvida por duas serpentes. O mesmo atributo caracteriza também asclépio, o deus dos médicos. CW Vol 9,1 par 553

•Mercúrio representa a substância transformadora na alquimia que é constituída de quatro elementos. É uma totalidade constituída de quatro partes e por isso é redonda e quadrada. Foram dadas a Mercúrio as quatro partes do mundo, ou, em outras palavras,  as quatro estações do ano.
•Jung CW vol IX,1 fig 63 par 172.

• Os processos de mediação  estão para além da esfera do relacionamento e do envolvimento  íntimo e pessoal. Apontam para uma intervenção que envolva também uma transformação ética na sociedade. Necessitamos  de novas formas de fazer alma e interferir na história e na construção da ética.

•A noção de inconsciente, as transformações sociais relativas aos gêneros, os avanços da física , instalam uma nova ordem social onde pensamos a ordem como parte de uma complexidade  (Morin) para além do modelo cartesiano de verdade  versus não verdade na ciência.
•A lógica é inter-relacional e se propõe ao entendimento de ordem  e desordem  como interconectados e não como antagônicos. Os métodos de mediação  se inserem em uma nova ética : A ética da alteridade em que as partes são co- construtoras de poderes e co-responsáveis.Etapas do Processo:1- Foco binário do conflito: Um ou outro tem razão.2- Introdução de um terceiro mediador legitima as partes em conflito.   O foco deixa de ser quem tem a razão para validar ambos os interesses em questão.3- Estabelecimento de pontes, relações entre os interesses das partes promovendo a empatia.4- Narrar a própria história desconstruindo pré-concepções e abrindo para novas percepções e compreensões dos fatos.

•Não é necessária uma interpretação com intenção diagnóstica do conflito mas sim compreensiva.
•Atenção à dialética das interferências entre história pessoal do mediador e histórias dos sujeitos. ( projeções ) . Partes dissociadas do conflito.

• O processo vivido tem influência sobre o conflito.
•Experiência de acolhimento.
•Experiência de inclusão.
•Experiência das semelhanças nas diferenças.
•Experiência da possibilidade do diálogo.
•Experiência da possibilidade da discordância sem atrito.
•Experiência  da empatia e do perdão.

• Quando se inviabiliza a mediação pròpriamente dita.
•Atendimento às partes separadamente.
•Atendimento à parte ao agressor e vítima também em psicoterapia e psiquiatria.

Realizar grupos de suporte específico à queixa trazida de violência. Resgate de auto-estima – Não sou eu, Não é erro meu, Eu não mereço isso. Fui programada (o) a pensar o oposto

Trabalho com pais adolescentes na favela de Paraisópolis.

O Colégio de Aplicação fechado pelo Ato Institucional número 5 durante a ditadura militar foi um marco na educação  e as sementes por ele lançadas continuam nas ações de seus ex- alunos. 

Aplicação turma de 1969 , professora Suzana Sampaio e Professor Clóvis Bojikian

vista do edifício Bretgane Higienópolis

Vista do Edifício Bretagne

 http://youtu.be/Y1-7-OQC0S0

 Hoje é aniversário de São Paulo, uma das cidades mais caras do mundo. Cara , querida e odiada. Esse é o paradoxo de SP. É só caminhar pelos jardins e suas lojas luxuosas e depois dar um pulinho na região do bairro da Luz, ex- cracolância para entender suas contradições. Será ex mesmo? Cidade de contrastes, São Paulo assusta e fascina. Cidade para onde as regiões menos favorecidas do Brasil migram e sempre encontram um lugar, mesmo que num terreninho de ocupação clandestina até  quando não se sabe.

 Cheguei a São paulo aos 9 anos de idade vindo com minha familia do Rio de janeiro, minha terra natal, para morar no bairro da lapa. Amo a Lapa até hoje. Lapa da imigração italiana que acordava atrás do verdureiro , sr Roberto, e não havia tomate e escarola que chegasse: RRRRRobertoo quero duas escarola! Dizia dona Maria do Sr Xingo.  Do outro lado da rua em uma casarão antigo tres irmãos italianos cantavam ópera logo cedo. E mais abaixo a professora de piano que dava aula passando flanela ao mesmo tempo nos móveis. Cheiro de molho de tomate pela rua toda logo de manhã e à tardinha perfume de geléia de uva fervendo no fogão.  Ao cair da tarde ruído dos meninos correndo com os carrinhos de rolemã. Lapa dos restaurantes que faziam frango a passarinho enquanto as moscas fritavam no fritador que ardia no teto. Sobremesa: Morango com Chantilly ou pudim de leite.  Ao lado o Palestra Itália abria seus braços para os bairros da Pompéia   e de Perdizes quando ainda não havia Avenida Sumaré. Alí era tudo mato. Na Rua Venancio Aires os Mutantes na casa de Rita Lee ensaiavam encantando as tardes. Na avenida Pompéia os sobrados geminados tinham até o muro encerado. Na rua Germanine Buchard o Defe e sua saudosa piscina que abrigou tantos atletas da natação de São Paulo.  Nadar nas piscinas de SP foi uma grande oportunidade : Clube Pinheiros, Tietê, Ipê, Corintians, Círculo Militar, Palmeiras, Alto de Pinheiros, Anhembi, Juventus , Portuguesa , Paulistano e Hebraica. Quem não conheceu a Lapa não conhece São Paulo.  Mas é importante conhecer o que está do outro lado da cidade.

E o Brás? Estação do norte que abrigava os que vinham do norte do Estado. O trem de aço para o  Rio de Janeiro …delicia!

Os magazines Mappin , Clipper que foram durante muitos anos centro das compras da classe média de SP.

E a rua Augusta que descia em cortejo todos os fins de semana : Chocolamour no Bambi, Mocassim da Spinelli ou La Pisanina , rua Augusta onde desfilavam as garotas de SP com as minis cada vez mais curtas , concorrendo com as garotas de Ipanema.

Descendo a Paulista , na Consolação o saudoso Cine Belas Artes das tardes de altos debates sobre os filmes franceses de primeira linha.

Caminhando pela Avenida Paulista encontramos a Avenida Angélica, princesinha que comunica os bairros do Pacaembu, Higienópolis e Cerqueira César  nos levando ao Pacaembu. Grande arena , o estádio do Pacaembu. 

São Paulo cresceu muito, se expandiu de oeste para sul e depois cresceu também para o norte e leste. Na Marginal do Pinheiros surgiram imponentes  condomínios comerciais . E  o  Jockey permaneceu soberano junto às novas construções.

Um bairro antigo de casas e chácaras foi demolido e virou bairro emergente com restaurantes, bares, casas noturnas com cardápios de todas as etnias: Itaim .Surgiu a Juscelino e a João Cachoeira teve que se modernizar, embora ainda se veja por lá algumas lojinhas do passado.

 Com os túneis  e o metrô SP ampliou os laços entre suas regiões  e hoje leste e oeste, norte e sul se comunicam com mais facilidade. Mas algumas regiões parecem ter permanecido intocadas: O Jardim Europa com seus casarões , e uma parte mais antiga do Morumbi. Parecem mini cidades dentro de SP.

 Mas se você quiser realmente conhecer SP vá ao jardim São Jorge, Nakamura, Campo Limpo, Monte Azul  e outras vilas periféricas da Zona Sul. Temos aí outras pequenas cidades dentro da cidade. E dê um pulinho na Zona Leste até o Itaim  Paulista e Guaianazes. Lá as ruas são de barro, terra batida e não há árvores. As casas são de madeira ou alvenaria e a iluminação principal é a televisão.

E é importante saber que há pessoas que viajam de trem e ônibus duas horas para atravessar a cidade todos os dias. Esse é o verdadeiro rosto da cidade de SP : seus contrastes.

 Como carioca posso dizer que é possível amar duas cidades. Amo o Rio e amo SP. Existe uma dureza nessa cidade que me ensinou a viver mas sem perder a poesia que trouxe  comigo do Rio. Existe um charme , um ar cosmopolita nessa cidade que me faz  sentir como que viajando  constantemente por novos lugares, estilos e mistérios. Isso também é poético.

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 3.400 vezes em 2011. Se fosse um bonde, eram precisas 57 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

Palestra de Celia Brandão no Clube Providência em Santiago do ChileA palestra versou sobre o abuso de poder e o pacto de silêncio , cenário do abuso contra crianças e adolescentes. O tema foi ampliado para as várias formas de abuso de poder. A técnica de mediação de conflitos foi alvo de reflexão.