De Higienópolis à Natingui

05/08/2011

Acabara de ter uma crise de tosse daquelas que parece que o ar não vai entrar mais. A experiência de estar sufocado, pensava, é muito próxima da impotência frente ao imponderável. Uma tarde de muito frio na Vilaboim e tomo um taxi que me levaria ao banco e depois ao consultório. Informei o taxista sobre nosso trajeto.  Ao informar que o banco se encontrava na outra pista da avenida , oposta à aquela por onde íamos, o taxista não conteve seu desconforto. Foi me perguntando sobre a possibilidade de irmos a uma outra agência e se queixando da situação pela qual se sentia vitimizado, disse-me que não faria uma conversão proibida porque  seria multado e que tinha mais multas na carteira do que as cirurgias que já fez na vida. Em menos de cinco minutos despejou -me um balde de reclamações e não pensando em nenhum momento  em fazer um outro caminho parou do outro lado da rua em frente ao banco e me solicitou que saísse e que poderia descontar a bandeirada.  Eu permanecia calada, estarrecida, dado que lhe havia informado nosso destino quando entrei no taxi. Paguei e fui embora, sem a menor disposição de tentar fazê-lo analisar sua atitude. Ele me agradeceu como que estranhando a ausência de uma reação nervosa minha em represália à sua descortezia.

Ao sair do banco retomei a pé o rumo intencionado e ao passar pela Rua Baronesa de Itú vi um casal de moradores de rua sentados à porta de um restaurante e um segurança ao seu lado, com cara de poucos amigos e que os intimava a sair dali.

O rapaz se levantou e chamou a menina: Deise , vem Deise ! Sinalizava que não se demorasse porque o segurança iria prendê-la.

Ao se voltar para trás me viu e me disse algo que não entendi mas continuei olhando para ele com um sentimento de tristeza, compaixão e impotência ao mesmo tempo quando sou  então surpreendida com sua fala e com seu sorriso para mim:  Deus abençõe a senhora. A senhora é muito linda !

 Parece que o fato de ter apenas olhado para ele foi  um acolhimento.  Um despossuído de bens os mais primários foi capaz de sensibilidade e generosidade no gesto.

Leu o que estava escrito em minha testa? Estava em contato com meu lado que às vezes também pode se sentir mendigo ?

Ele atravessou a rua ainda chamando sua amiga ou irmã ou quem sabe namorada …Deise que tomava mais um gole e reunia os pertences de sua casa itinerante .

Continuei o meu caminho, pensando o quanto aquele taxista estaria se sentindo miserável , sem nada para oferecer .Compaixão e generosidade são dons divinos mas é preciso olhar para o mendigo que existe em  cada um de nós. O que se sente mais miserável pode suportar sua dor , se o sentimento de compaixão pelo outro e pelos fatos de sua vida não tiverem morrido apesar das dores.

Negar o mendigo interior é negar a própria sombra que vai roubar a direção do carro e sair em desgoverno..

Carro desgovernado

Vida desgovernada

O eu desgovernado

 Desgoverno.

Cegueira da alma

Morte  psíquica

 Morte.

Jovens na calçada

 Com vendas nos olhos

Ensaiam sobre a cegueira

Como Saramago.

Para ver é preciso abrir os olhos da alma.

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