Relações amorosas no trabalho

20/08/2010

O romance mais comum na contemporaneidade é no ambiente de trabalho. Há quem comente que o fator crucial seja a conveniência, o amor express, pertinho e prático. Assim como nas relações de trabalho, o romance entre vizinhos, até porta à porta, também é frequente.

Segundo Zigmund Baumann, “as cidades se transformaram depósitos de problemas causados pela globalização”. A tarefa de encontrar soluções globais para problemas globais tornou-se o desafio da contemporaneidade. O isolamento das grandes cidades inaugurado com o surgimento da metrópole no século XX  não se resolveu no século XXI apesar dos recursos da tecnologia da informação e do incremento dos meios de transporte e comunicação. Podemos nos falar e até nos ver no ciberespaço mas não podemos tocar, acariciar, amar.

Diz Castells:” Houve uma produção de sentido e de identidade: a minha vizinhança, a minha comunidade, a minha cidade, a minha escola, a minha árvore, o meu rio, a minha praia, a minha igreja, a minha paz, o meu ambiente.”‘As pessoas desarmadas diante do vértice global fecharam-se em si mesmas.”

Baumann comenta que quanto mais nos fecharmos em nós mesmos mais desarmados ficaremos diante do “vértice global”.

Entendo que é nesse contexto que as “relações locais”se tornam oportunas: namorar o patrão, o colega de trabalho, o próprio médico, a própria dentista e ter caso com o vizinho(a).

Diz Baumann: As localidades só podem resistir negando direito de desembarque aos fluxos desenfreados, para constatar em seguida que eles desembarcam em localidades vizinhas, cercando e tornando marginais as comunidades rebeldes”.

Diz a música; “Você não gosta de mim mas sua filha gosta.”

O espaço que um cede é rápidamente ocupado, segundo a ética extremamente flexível da conveniência. O medo do desconhecido permanece vivo e nos aventuramos em comunidades locais. É nessa lógica da vigilância e isolamento e da conveniência atrás dos muros dos condomínios e grandes corporações que as relações “contíguas” tornam-se redutos fechados com ares de semelhança, harmonia e ausência de conflitos.

Diz Baumann: “A mixofobia se manifesta como impulso em direção às ilhas de identidade e de semelhança espalhadas no grande mar da variedade e da diferença.”

Na manchete do jornal lemos a noticia de que grande empresário , dono da HP, está envolvido em processo judicial por assédio. O jornalista comenta que esse fato é sinal de que há algo errado com as grandes corporações.

O assédio antes analisado sob a luz do poder opressivo do mundo patriarcal, de homens contra mulheres, hoje se extende à população feminina, como no filme de Michael Douglas e Demi  Moore. O assédio se insere no fluxo das relações de poder mas também nas questões da carência, do vazio, do isolamento. A idealização do outro  considerado mais  próximo e semelhante contra um mundo estrangeiro  ocupa um lugar de  única saída para o sentimento de perda de identidade. O outro é eleito como preeenchimento do próprio vazio interior. Se relacionar superficialmente, com outros considerados “como nós” tornou-se uma forma de evitar possíveis conflitos no contato com a diversidade. Como Diz Baumann estamos perdendo a arte de negociar significados e um “modus vivendi.” Namorar, trabalhar, socializar, em um mesmo grupo de supostos semelhantes, empobrece a nossa capacidade crítica de refletir sobre a alteridade.

Da mesma forma, transformar o amante em colega de trabalho pode correr o risco de ser mais um muro que nos protege da grande cidade, enquanto nos mantemos dentro de nosso “condomínio”.

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Uma resposta to “Relações amorosas no trabalho”


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