Relações amorosas

23/08/2010

Há quem diga que a última coisa que gostaria de viver é um relacionamento com colega de trabalho. Ouvi depoimento de que as pessoas estão se evitando no ambiente de trabalho, ao contrário de se aconchegando.  É interessante esse testemunho e de outro lado, as queixas de assédio que tem sido veiculadas na mídia. Será que não ocorrem as duas coisas ? De um lado as pessoas estão realmente se evitando , no sentido da intimidade e de outro proliferam as ” relações express ” ou “delivery”como já ouvi falar. O prático toma o lugar do mais elaborado, que requer investimento e dedicação.  E como bem formulou Reich, as relações não satisfatórios derivam em uma “estase libidinal” que vai manter o indivíduo em contínuas tentativas pouco elaboradas ou no fechamento defensivo do evitamento.

Hay gente que dice que lo último que le gustaría vivir es una relación con un colega de trabajo.  El otro día oí que la gente se está rehuyendo en el ambiente de trabajo, en lugar de cobijarse. Resulta interesante ese testimonio de un lado y de otro las quejas de acoso sexual  que han sido difundidas en los medios de comunicación. No  ocurrirán los dos ? De un lado la gente de hecho está evitándose , respecto a la intimidad y de otro proliferan las ” relaciones express ” o “delivery” expressiones comunmente repetidas. Lo práctico sustituye  lo elaborado, que requiere inversión y dedicación.  Y como bien  planteó Reich, las relaciones no satisfactorias resultan en una “estasis libidinal” que va a  mantener al individuo en continuas tentativas poco elaboradas o en una clausura defensiva.

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O romance mais comum na contemporaneidade é no ambiente de trabalho. Há quem comente que o fator crucial seja a conveniência, o amor express, pertinho e prático. Assim como nas relações de trabalho, o romance entre vizinhos, até porta à porta, também é frequente.

Segundo Zigmund Baumann, “as cidades se transformaram depósitos de problemas causados pela globalização”. A tarefa de encontrar soluções globais para problemas globais tornou-se o desafio da contemporaneidade. O isolamento das grandes cidades inaugurado com o surgimento da metrópole no século XX  não se resolveu no século XXI apesar dos recursos da tecnologia da informação e do incremento dos meios de transporte e comunicação. Podemos nos falar e até nos ver no ciberespaço mas não podemos tocar, acariciar, amar.

Diz Castells:” Houve uma produção de sentido e de identidade: a minha vizinhança, a minha comunidade, a minha cidade, a minha escola, a minha árvore, o meu rio, a minha praia, a minha igreja, a minha paz, o meu ambiente.”‘As pessoas desarmadas diante do vértice global fecharam-se em si mesmas.”

Baumann comenta que quanto mais nos fecharmos em nós mesmos mais desarmados ficaremos diante do “vértice global”.

Entendo que é nesse contexto que as “relações locais”se tornam oportunas: namorar o patrão, o colega de trabalho, o próprio médico, a própria dentista e ter caso com o vizinho(a).

Diz Baumann: As localidades só podem resistir negando direito de desembarque aos fluxos desenfreados, para constatar em seguida que eles desembarcam em localidades vizinhas, cercando e tornando marginais as comunidades rebeldes”.

Diz a música; “Você não gosta de mim mas sua filha gosta.”

O espaço que um cede é rápidamente ocupado, segundo a ética extremamente flexível da conveniência. O medo do desconhecido permanece vivo e nos aventuramos em comunidades locais. É nessa lógica da vigilância e isolamento e da conveniência atrás dos muros dos condomínios e grandes corporações que as relações “contíguas” tornam-se redutos fechados com ares de semelhança, harmonia e ausência de conflitos.

Diz Baumann: “A mixofobia se manifesta como impulso em direção às ilhas de identidade e de semelhança espalhadas no grande mar da variedade e da diferença.”

Na manchete do jornal lemos a noticia de que grande empresário , dono da HP, está envolvido em processo judicial por assédio. O jornalista comenta que esse fato é sinal de que há algo errado com as grandes corporações.

O assédio antes analisado sob a luz do poder opressivo do mundo patriarcal, de homens contra mulheres, hoje se extende à população feminina, como no filme de Michael Douglas e Demi  Moore. O assédio se insere no fluxo das relações de poder mas também nas questões da carência, do vazio, do isolamento. A idealização do outro  considerado mais  próximo e semelhante contra um mundo estrangeiro  ocupa um lugar de  única saída para o sentimento de perda de identidade. O outro é eleito como preeenchimento do próprio vazio interior. Se relacionar superficialmente, com outros considerados “como nós” tornou-se uma forma de evitar possíveis conflitos no contato com a diversidade. Como Diz Baumann estamos perdendo a arte de negociar significados e um “modus vivendi.” Namorar, trabalhar, socializar, em um mesmo grupo de supostos semelhantes, empobrece a nossa capacidade crítica de refletir sobre a alteridade.

Da mesma forma, transformar o amante em colega de trabalho pode correr o risco de ser mais um muro que nos protege da grande cidade, enquanto nos mantemos dentro de nosso “condomínio”.