Sexo Hoje

16/05/2010

Na pratica clinica observo que a alteridade no relacionamento afetivo é hoje um desejo oculto presente na sombra coletiva: o desejo de uma relação baseada no respeito, na valorização de si e do outro.

Apesar da revolução sexual dos anos 1960 ainda assistimos os conflitos de poder permeando o exercício da sexualidade e os relacionamentos afetivos.

Um exemplo na atualidade, que circulou pela mídia  é o do uso das pulseiras pelos adolescentes para expressarem seus desejos de aproximação sexual com os amigos. Dado que essa prática foi seguida de episódios de violência contra alguns adolescentes e pré- adolescentes foi proibida na rede escolar do Rio de Janeiro. A associação simbólica entre sedução sexual e violência está aí presente. Outro episódio semelhante foi a agressão à estudante universitária porque estava de mini-saia. Essa atitude demonstra a presença ainda de uma moral sexual permeada pela desigualdade de direitos entre os gêneros e pelo preconceito em relação à iniciativa sexual da mulher.

Ao contrário de reprimir o sexo, nossas crianças e adolescentes necessitam de um acolhimento e orientação em relação ao seu desejo e fantasias.

Outro fato recorrente na clinica é de homens que tem se apaixonado e estabelecido relações estáveis com suas garotas de programa. Essas relações seguem o modelo patriarcal de dependência da mulher de menor poder aquisitivo e status social ao homem.  Muitos conflitos aparecem e o forte elemento motivador consciente é a maior satisfação sexual com essas mulheres. Porém, observo a extrema necessidade de acolhimento emocional desses homens.

De outro lado, mulheres bem sucedidas reclamam do abandono dos homens que competem com sua autonomia e as abandonam sexualmente, muitas vezes apresentando sintoma de impotência sexual com elas. Esse fato independe da idade dos parceiros. No consultório aparece também a queixa dos homens que em função de conflitos de autoridade frente a uma mulher bem sucedida e independente, não conseguem se relacionar sexualmente com a companheira.

No consultório verifico que mulheres  vivem conflito de auto-estima quando uma relação que resultou de iniciativa e sedução mútua entre os parceiros é interrompida pelo homem após poucos encontros. Uma moral machista da mulher se oculta atrás do sentimento de desvalorização apesar da suposta simetria entre os gêneros.

Outra questão é a proliferação dos locais e da prática do swing que nos relatos surge muito mais como um espaço de afirmação narcísica do que de compartilhamento.Um exercício mais auto-erótico e de afirmação pessoal do que uma troca entre parceiros. Um outro aspecto é o desenvolvimento das substâncias farmacêuticas como o Viagra ou a oxitocina, que podem alimentar a idéia de que podemos ter um controle absoluto de nossas emoções e de nossa sexualidade.  Mal entendido que deixa de entender o amor e o sexo como produtos de um ecosistema humano, resultado da interação humana com outros humanos e com o meio ambiente.

Diante desses fatos coloco em debate.  Quanto e em que progredimos na nossa prática sexual e amorosa desde a queda do patriarcado?

Autora : Célia Brandão 15/5/2010

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