Identidade e poder nas relações amorosas

15/09/2009

 Raiva

         O atendimento a casais e  clínico individual a homens e mulheres me permitiu observar as diferenças de poder que perpassam as parcerias como fatores de conflito.   Essas diferenças de poder resultam em diferentes níveis de investimento, generosidade, permissividade, solidariedade, aceitação de diferenças, ideais de satisfação pessoal que Neves chama  de “obscuridade das relações de intimidade”. O desequilíbrio de poder entre os parceiros é um dos fatores da violência entre casais.      No atendimento em psicoterapia, a homens de 30 a 53 anos, a autonomia das mulheres  aparece em algumas falas masculinas como sinonimo de abandono e de não acolhimento afetivo. Os homens estão se confrontando com um imago de  mulher muito poderosa que em seu imaginário não necessita de seu afeto e nem tão pouco de sua proteção.      Mas, ao contrário, cuja competência é vivida como ameaça.

       Por outro lado, essa mesma mulher que conquistou sua independência financeira e liberdade sexual  não tem essas conquistas reconhecidas e por ela legitimadas como expansões dos limites de sua identidade.

       Sendo assim ainda não deitou as armas, armadura que considera necessária diante de uma ameaça de perda de suas árduas conquistas. Ainda apegada ao modelo patriarcal  e ao amor romântico simula a dependência ao companheiro através de uma cobrança torturante para que exerça os papéis tradicionais na vida do casal, cuidados esses, dos quais nem ela mesma acredita depender.

 Dessa maneira a díade homens fóbicos versus mulheres abandonadas  se complementa por uma outra: mulheres ressentidas e aguerridas versus homens fóbicos. É uma característica  do ressentido  se tornar reativo frente ao medo de sofrer um novo agravo ou nova frustração.

 “ Separar a sexualidade masculina dos conceitos de força, poder e violência, históricamente atribuídos ao homem, é uma tarefa tão complexa quanto separar a fada da bruxa, da mãe, da libertina. No tocante à mulher o trabalho já foi feito. Mães, irmãs e filhas podem  se excitar, desejar e gozar. E os homens, podem pôr em público a ternura sem se emascularem?”Mautner, Anna,V Folha de São Paulo Equilíbrio 21/maio 2009 pag 2 .

     No trabalho clínico verifico que homens jovens tem estabelecido relações amorosas com garotas de programa que haviam lhes atendido profissionalmente. Relatam que com essas mulheres não tem conflitos. Não se sentem ameaçados em receber afeto dessas mulheres enquanto com suas esposas  sentiam-se em constante disputa pelo poder.  Queixam – se de suas mulheres como dominadoras, briguentas, pouco carinhosas, pouco afetivas, demandadoras.

     Nessas novas relações voltam ao padrão tradicional, onde sustentam a companheira, pagam estudos, e acrescentam ter a vantagem de um  excelente sexo. Sentem estar realizando algo especial por essas mulheres e que estão sendo valorizados.

     Esse mesmo padrão se repete entre homens mais velhos e mulheres mais jovens.

      Do outro lado, a queixa de muitas mulheres bem sucedidas profissionalmente e independentes financeiramente de diferentes faixas etáreas é de serem abandonadas sexualmente e afetivamente por seus companheiros que se sentem impotentes diante de suas competências como provedoras e, às vezes, com maiores salários.

    Outra queixa é a da exploração financeira por parte dos companheiros que interrompem o relacionamento quando diminuem as facilidades financeiras.   

 Esses fatos convergem com a tese de Nolasco de que alguns elementos que  conferiam ao homem anteriormente identidade, agora não são mais exclusividade do masculino.

       A possibilidade de abandonar a mulher ou de ser violento e dominador, destituindo-a de seus elementos de força, poder e liderança podem ser uma tentativa do homem de resgate de sua potência e identidade.

     Mas dessa forma estaríamos em um círculo vicioso mantido por um eterno ajuste de contas.

 Segundo Baumann o desejo é um impulso que estimula a despir a alteridade de sua diferença; portanto a desemponderá-la [disempower]. Tentar domesticar as diferenças não seria a solução mas sim estabelecer o diálogo na busca de uma maior equidade.

     Diálogo esse que não se faz apenas nas relações afetivas mas nas relações de poder mais amplas. 

      Dessa forma poderia emergir em cada um a verdadeira  responsabilidade pelo outro e a possibilidade do vinculo amoroso que se separa da posse e do poder. 

 Eros se distancia da posse e do poder. “Eros é uma relação com a alteridade, com o mistério, ou seja, com o futuro, com o que está ausente do mundo que contém tudo o que é(…) O Pathos do amor consiste na intransponível dualidade dos seres”[ Levinas apud Baumann] (….) “Eros não quer sobreviver à dualidade. Quando se trata de amor, posse, poder, fusão e desencanto são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.” Baumann, Z Amor líquido pag 22.

( Esse Post é parte do trabalho que foi apresentado e publicado nos Anais do V  Congresso Latino Americano de Psicologia Junguiana de 2009 realizado em Santiago do Chile)

Anúncios

3 Respostas to “Identidade e poder nas relações amorosas”

  1. Ane Lamorr Says:

    Ameeeeeei o seu espaçooo! Parabénss!!!

    Ane Lamorr


  2. […] Identidade e poder nas relações amorosas setembro, 2009 2 comentários 5 […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: