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Foi com muito pesar que li uma matéria publicada no Jornal Le Monde sobre o assassinato da menina Isabella, de 2008, atribuindo a violência doméstica no Brasil ao fato da tardia Abolição da Escravatura (1808) e aos modelos “adquiridos”de educação. Como se esse modelos de discriminição e desigualdade social tivessem sido gerados aqui no Brasil, quase como uma geração espontânea, como algo atávico, como nossa identidade. As crianças e as mulheres, assim como os negros e os países do terceiro mundo são há alguns séculos o que conhecemos como excluidos no que se refere à sua situação como  sujeitos de direitos e  Estado de direitos respectivamente.

O fato de se saber que no Brasil o genocídio assume índices preocupantes com autores dentro das familias e não só pela policia, nos faz responsáveis socialmente e como profissionais da área de psicologia para pensar essa questão.

Mas passa a ser uma arrogância da Velha Europa esse comentário no Le monde que nas semanas próximas ao crime de Isabella circulou pelo mundo noticia de uma outra familia de classe média austríaca em que o pai manteve em cativeiro a filha que também tomou como concubina e mãe de seus netos também cativos.

Enquanto continuarmos projetando nossa sombra no outro, enquanto temermos nossa humanidade, creio que será muito dificil lidar com a questão da violência que não escolhe raça, país, classe social, e que nos assola.

Pensamos de maneira equivocada sobre a violência como um epifenômeno do poder.

É quando o poder legítimo perdeu a sua força, quando o sentido ético se perdeu , que ocorre a violência, o abuso do poder e o pacto do silêncio. Quando os rituais não funcionam e os papéis dentro da familia se perderam. Quando já não há interdição para conter os conflitos dentro da familia.

A ameaça de perda da autoridade pelos pais, ou qualquer diminuição do poder legítimo dos pais são um convite à violência. O abuso do poder é prova documental da inexistência e da fragilidade da autoridade das figuras parentais e dos vínculos dentro da familia.

O pacto do silêncio é o recurso utilizado pelos agressores para manter a situação do abuso, favorecendo o espaço da violência.

O tema do incesto tem sido um dos mais assiduamente visitadossnow4 no blog.

Entre o mito e a cultura, a questão do incesto tem  sido discutida em várias áreas das ciências humanas, pelas artes cênicas e literatura, pela área jurídica e pela religião.

A palavra incesto quer dizer estar contido in (dentro )  (cesto) .

Viver a intimidade e emoções em situação protegida. Pode ser análogo a estar em uma situação  de endogamia, em sua origem antropológica.

Para Jung as fantasias incestuosas de uma criança tem a função de humanização  de suas emoções nas relacões com seus familiares.

Se por ventura se acompanham de conteúdos sexuais não devem ser literalizados.

Podem estar apenas assinalando uma busca de maior intimidade e fusão para que depois possa haver um outro nível de discriminação.

Se existe um tabu do incesto ele emerge com o próprio impulso incestuoso, de uma dimensão ética do indivíduo e um sentido de preservação das relações grupais e não da repressão advinda de uma moral externa.

A busca de um adolescente ou de uma criança na relação com um adulto pode ter diferentes motivações, como por exemplo, entre uma aluna e um professor, a de admiração e curiosidade intelectual.

Se a curiosidade  e o desejo sexual se acrescentam a essa admiração  grande parte das vezes é mais por parte do adulto e cabe a este o papel de estabelecer os limites.

A sexualização imediata pode ser mais do adulto,  resultante de uma projeção de suas fantasias na criança ou adolescente.

A possibilidade de trabalhar com os conteúdos de idealização e admiração sem cair nas armadilhas da sedução poderá resultar em desenvolvimento mútuo.

Um sentido de auto- preservação coloca o homem em conflito diante de situações que abalam o equilibrio e a coesão do  seu grupo.

Nossa tendência é negar e afastar da consciência o que nos causa conflito. O mecanismo de negação  e a alienação não resolve nossos problemas.

A questão do incesto é complexa e faz parte da natureza humana.

É muito importante considerar as diferenças presentes nas relações incestuosas mais ou menos abusivas, mais ou menos assimétricas, e para isso é necessário ver caso a caso.

Incesto não é sinonimo de abuso.

Mas, em geral as relações incestuosas , que se dão dentro da familia , são abusivas.

casal no carroPasmem. Em um canto da festa um grupo de homens na faixa de de 24, 26 anos heterossexuais, conversava : Falta homem na praça. Do outro lado da festa uma meia dúzia de moças desacompanhadas. E vai cerveja e cigarro.

Balada irada, malvada, isolada. E diz um outro: Cara, aqui está muito bom, mas vou ter que ir à guerra. Vou encontrar uns amigos numa balada lá na Hadock Lobo. Mais uma cerveja para dar coragem. Gatinha aquela ali.

No outro canto da sala.

Aniversário de trinta anos. Vocês lembram quando nós bebíamos até dormir todas juntas aqui no sofá ah ah ahah…é a turma do colegial foi melhor que a da faculdade. É, a turma das ciências sociais era mais unida do que as outras na faculdade…

Seis horas de festa.

As meninas se despedem. Vamos mais tarde até um barzinho na Vila.

Um grupo continua tocando e cantando canções da MPB com tal sensibilidade que me faz pensar que o problema não é que falta homem na praça. Falta coragem de deixar esse sentimento se expressar.casal no carro

Sunset

05/08/2009

lisboa 055

 

“O que aparentemente é “incorreto”, quando aliado à capacidade humana de redesenhar o “bom “, permite o apontamento de um novo “correto”, que por sua vez transforma a realidade profana em sagrada.” Nilton Bonder

Nas meditações ao cair da tarde…que a possibilidade de transgredir o status quo, a possibilidade da traição, contrariar o establisment, é a única forma de encontro com o si mesmo.

Luto amoroso

05/08/2009

divorceNa contemporaneidade, a auto-estima se confunde com a rápida adaptação às circunstâncias, e os ritos de aproximação e afastamento são tragados pela busca desenfreada por satisfação. A falta de acolhimento social para os momentos de transição como o do processo de luto, lança-nos em um movimento de negação que implica a necessidade de desfazer-se precocemente do registro da perda na consciência.

Em uma sociedade voltada para o sucesso individual, o término de um relacionamento é vivido como um fracasso pessoal e tratado com certa desconfiança e rejeição pelo outro. Este, aqui entendido tanto como o outro “de fato”, como também pelo outro protagonizado pela sombra individual. Pois, o sujeito que se separa compartilha de uma mesma consciência coletiva, e tende a julgar-se mesmo quando o restante da sociedade o ignora. Neste caso, ele próprio exercita o julgamento que espera dela, em uma situação de solidão que acentua a angústia de morte vivida na separação.

Quando caímos no luto estamos diante da perda de um objeto. A primeira vivência do luto é a ausência do outro em nossa vida. A ultrapassagem desse momento de ruptura pode não se dar completamente, e o enlutado refugia-se na tristeza, de tal forma, que se confunde e já não sabe o que perdeu.O melancólico perdeu seu próprio eu.

Vejaoqueacontecequando2artistasse